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Artes Visuais

JOSILTOM TONM E SEU MUNDO ESCULTÓRICO

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Os galeristas, marchands, colecionadores, e outros atores culturais precisam prestar mais atenção no conjunto da obra escultórica do artista Josiltom Tonm que há mais de meio século vem criando seus entalhes e esculturas com muita qualidade técnica, leveza e delicadeza que o transporta para o campo do lirismo. Ele vive sozinho, quase como um ermitão em sua casa-ateliê, na Rua Carinhanha, no bairro do Pernambués, em Salvador, onde suas esculturas estão arrumadas em prateleiras, nas paredes e algumas dependuradas. Não se apresenta como deveria nas redes sociais para mostrar suas obras, e assim pessoas que comercializam e gostam de arte tomariam conhecimento e passariam a procurá-lo. Também notei quando ficou diante de mim que sua conversa não flui no primeiro momento com muita facilidade, embora no decorrer de nosso encontro ele discorreu com inteligência sobre sua obra. Quando senti seu retraimento brincando falei. “Ficou travado?” Ele tomou aquele choque e continuei perguntando e provocando até que foi falando do seu processo de criação e passou até se queixar das dificuldades em mostrar o seu trabalho. Esta entrevista foi possível porque o procurei através uma lembrança de sua colega de profissão a competente Lygia Aguiar. Posso afirmar que Josiltom Tonm é um escultor que pode mostrar suas obras em qualquer museu daqui e do exterior pela qualidade da técnica, pelo uso correto dos materiais que usa como suporte para se expressar, pela qualidade e inentividade do design moderno e da leveza de suas peças. Está aí uma boa sugestão de se promover uma exposição retrospectiva dos cinquenta anos de arte do Josiltom Tonm para que seja apeciada parte de sua produção pelos que gostam de arte e em particular de esculturas.

Escultura em madeira , datada de 2013


O seu nome de batismo é Josilton Ribeiro Nunes, assim mesmo com n no final do primeiro nome, e escolheu assinar suas obras Josiltom Tonm, por isto que encontramos nos textos escritos sobre ele diferenças na maneira como passou a ser identificado. Ele nasceu em Alagoinhas em oito de dezembro de 1951 e é filho do ferroviário João de Deus Nunes e Zilta Ribeiro Nunes. Fez seu curso primário e até o segundo ginasial no Ginásio de Alagoinhas. Em seguida veio para Salvador concluindo o segundo grau no Colégio Estadual João Florêncio Gomes, no bairro da Ribeira, em Salvador-Ba. Em 1976 prestou vestibular para a Escola de Belas Artes, e não estudou o suficiente para ser aprovado e terminou sendo selecionado na segunda opção que era Ciências Contábeis. Chegou a cursar apenas dois meses porque ali não era realmente a sua praia, como se diz no popular. Quando vieram para Salvador o Josilton e sua família foram morar no subúrbio de Paripe. Estava com dezenove anos de idade e foi lá que viu pela primeira vez um entalhe. Ele não se recorda exatamente onde estava o entalhe, mas foi a partir daí que passou a se interessar e a fazer seus primeiros entalhes. Depois numa evolução natural chegou às esculturas de madeiras e pedras.

Escultura sem título de Josiltom


Conheço desde os anos 70 o artista Josiltom Tonm que me procurou na redação do jornal A Tarde com alguns entalhes de uma exposição que iria fazer na Galeria da Associação Cultural Brasil-Estados Unidos – ACBEU, no Corredor da Vitória, no ano de 1977. Era um total de dezesseis entalhes e quatro esculturas que o então jovem artista ia mostrar ao público baiano. Nesta época Salvador tinha várias galerias e outros espaços onde os artistas podiam expor suas obras e o movimento de pessoas nos vernissages era expressivo. As galerias imprimiam catálogos, às vezes simples, outras mais caprichados, dependia do patrocinador que também oferecia um coquetel. Existiam umas tribos já conhecidas que não perdiam um vernissage onde eram servidas bebidas e salgadinhos à vontade, e distribuídos gratuitamente os catálogos para todos os presentes. Era um bom programa para quem não tinha grana para gastar na noite baianae gostava de arte. Depois foi escasseando e os coquetéis passaram a ter apenas prosecco de péssima qualidade e nada de salgadinhos, até que também quase desapareceram.

Duas esculturas onde Josiltom usa varetas de vários tamanhos e tipos de madeira para construir suas obras


Foi nesta época então que registrei na coluna Artes Visuais a sua exposição. Era um iniciante que começava a dar os primeiros passos. Mostrei a necessidade de continuar esculpindo e trabalhando, estudando. O tempo passou, e, de repente, ele volta para mostrar-me seus novos entalhes. Fiquei surpreso com o crescimento do artista que trabalhou com formas abstratas e algumas formas insinuavam os corpos sensuais de mulheres. Veio e trouxe algumas considerações pessoais sobre o trabalho que estava realizando, no contato diário com as madeiras, que prefiro transcrever na íntegra para que vocês tomem conhecimento que não é mais um entalhador sem consciência que faz a coisa por instinto. Ele possuía informações, as quais usou com muita propriedade. Vejamos:

Aqui vemos um bela escultura feita de calcita ,em posições diferentes. Destaco a forma e a cor de mel desta obra . A pedra veio da Cidade de Santa Luz-Ba.


“Na arte de entalhar, e nela venho me expressando, através de desenhos exercitados onde, às vezes, consigo com alguns traços, focalizar instantes que de imediato interpreto, sinto, desde já a possibilidade de o desenho ser transformado em entalhe. Quanto ao sentido do meu trabalho, onde se desenvolve o problema vida-vidências o ritmo que está presente nas formas orgânicas da natureza; a simetria que aparece de um modo inconsciente; a proporção, principalmente, quanto à característica tensão entre o homem e o material que ele trabalha, são elementos que podem surgir formando um equilíbrio quase constante. Independente da figura global que é um desdobramento ou um amontoado de outras figuras que muitas vezes, olhadas de outro ângulo, tem o conteúdo alterado, podendo então se notar o significado da simplificação da figura como preocupação primordial.”

O artista não costuma colocar títulos em suas obras.Deixa ao critério do espectador viajar em seu universo onírico. Esta escultura feita em madeira e mármore do Espírito Santo lembra um animal.


Era, portanto, o esforço e um sentimento do jovem artista em expressar através de palavras este universo e momentos mágicos da criação onde o criador está diante do suporte que pode ser uma tábua, tronco de madeira ou um bloco de pedra, todos de tamanhos variáveis os quais vão se transformar numa obra de arte. Pode parecer fácil para alguns, mas com certeza não é, porque são sentimentos quase indescritíveis, são sentimentos em outra dimensão onde os neurônios estão trabalhando muitas vezes calmamente noutras em ebulição e aí vão surgindo os talhos, os cortes e no caso da pintura as cores mais fortes ou mais claras, os espaços a serem preenchidos e novos desafios surgindo durante o processo de esculpir, pintar ou desenhar. Um talho forte ou uma composição formal harmoniosa
caracterizam o trabalho de Josiltom que está expondo na Galeria ACBEU. Uma obra criativa e cuidadosa onde aparecem totens geometrizados completamente originais. As figurações sugerem através das formas geométricas rostos e coisas, mas não existe qualquer semelhança com totens produzidos por artistas populares africanos.
O toque pessoal é presença no trabalho deste jovem artista. Ainda cheio de interrogações, em busca de respostas para tudo, Josiltom vai falando do seu trabalho e das dificuldades que enfrenta para prosseguir o seu caminho, que certamente será coroado de êxitos. Percebo a sua tendência para a escultura, inclusive ele está mostrando quatro, mas ainda não representa um trabalho mais acurado e definitivo. Quanto aos entalhes são de boa qualidade e as tonalidades suaves dão um contraste harmonioso ao conjunto. Suas peças, todas apresentando uma tendência geometrizante, não são repetitivas, o que demonstra sua capacidade criativa. Acredito em Josiltom e desejo acompanhar de perto o seu trabalho.”

Escultura em madeira de 1978, sem título. Lembra os abraços fraternos


Como escreveu a Sofia Olszewski numa das exposições do Josiltom Tonm “A escultura é um objeto tridimensional que exige do observador uma contemplação de todos os ângulos para apreciação do todo. Nesse caso, o todo são peças grandes, sólidas e simples que incluem o discurso a própria essência da pedra. De acabamento polido, refletem o exterior e mantém a figura oculta da pedra. A abstração não significa ausência, mas a deliberada retirada do Tema para que este não interfira na contemplação do espectador”.

Em junho de 2001 levado por sua filha Madi o saudoso escultor Mário Cavo Jr. esteve visitando a casa-ateliê de Josiltom Tonm quando escreveu que o artista estava seguro do que fazia e de sua habilidade em trabalhar com a calcita (carbonato de cálcio cristalizado), cujos trabalhos que produziu apresentou no foyer da Casa do Comércio. O experiente Mário Cravo Jr. disse que “A calcita é um minério muito resistente e difícil a penetração de ponteiros e abrasivos, seu polimento é lento e o domínio das formas é exaustivo e laborioso. A cor de mel com rajadas cremes amarelados tem a magia do jade e madrepérola, é translúcido, porém até certo nível. Os trabalhos apresentados tem duas vertentes: levemente penetrados e os vazados (perfurados). Além do total controle das esculturas sob o aspecto das formas, o escultor apresenta uma série homogênea e coesa de trabalhos, com variáveis limitados nas soluções de tratamento de superfície, e que empresta ao grupo de esculturas “unidade”, raro de ser encontrada em exposições de objetos tridimensionais. De que me é dado conhecer até o presente momento, aqui em Salvador, é Josilton uma poderosa revelação de criatividade, no sentido construtivo e inventivo. Seu ateliê merece ser conhecido pelos que gostam das artes visuais”.

Esta potente escultura ilustrou a capa do catálogo da exposição na ACBEU, em 2013.

Também o saudoso Edson Calmon escreveu em 2004: O escultor e a pedra: O secreto de um é o silêncio do outro. A solidez de um é o possível dos dois. O silêncio, a pedra, e lá está o escultor, fica dias seguidos, às vezes parado, imóvel, em frente à pedra. Escuta o seu silêncio, desliza o olhar pela sua forma curva, sensual e forte. Espera do ângulo, o momento ângulo, o escultor faz um corte, às vezes raso, outros profundos, o corte. Assim dirigido, o bloco compacto permite que o espaço penetre. Não raro o corte permite que outra massa venha a agregar à primeira. Assim também acontece com as peças em madeira e em cimento. Dessa maneira surge a inusitada arquitetura”.

Escultura em mármore branco, de 2004


EXPOSIÇÕES


INDIVIDUAIS – Fez muitas exposições individuais e coletivas e recebeu algumas premiações durante sua trajetória artística. Vejamos: 1974 – Exposição na Biblioteca Central dos Barris, em Salvador-Ba; 1975 – F.E.P.A., Alagoinhas-Ba; 1977 – Entalhes e esculturas na Galeria ACBEU, Salvador-Ba ; 1978 -Esculturas na Galeria Cañizares, Salvador-Ba ; Museu da Cidade do Salvador-Ba; 1979 – Gabinete Português de Leitura, Salvador-Ba; Museu Regional de Feira de Santana-Ba; 1980 – Restaurante Natural, Rio de Janeiro-RJ; 1981 – Galeria da Aliança Francesa, Salvador-Bahia; 1982 – Exposição no Instituto Cultural Brasil Alemanha- ICBA, Salvador-Ba; 1983 – F.E.P.A, Alagoinhas-Ba, Montagem de Duas Propostas; Agreste ou Vamos para a Terra III na Revivênciado Símbolo e Arte Hidrifísica , Uma Solução Aquosa para Uma Questão Urbana; Galeria de Arte do SESI, São Paulo-SP; 1984 – Montagem da proposta: O Canteiro Circular e a Cerimônia Final; Itaú Galeria de Arte, Brasília-DF; 1985 – Exposição na F.E.P.A – Alagoinhas-Ba; 1986 – Exposição na Prefeitura Municipal de Irará-Ba; 1987 – Exposição no foyer do Teatro Castro Alves, Salvador-Ba; 1989 – Mostra na Casa da Cultura Galeno D’Avelirio , Cruz das Almas-Ba ; Exposição no Centro de Cultura Ceciliano de Carvalho, Senhor do Bonfim-Ba; 1990 – Exposição no Centro de Cultura de Alagoinhas-Ba; 1993 – Exposição de Esculturas nno foyer do Cine-Teatro Casa do Comércio, Salvador-Ba; 1994 – Exposição na Casa de Chá Engenho Velho, Alagoinhas-Ba; 1995 – Exposição no Restaurante Grão de Arroz, Salvador-Ba; 1996 – Exposição no foyer do Cine-Teatro Casa do Comércio, Salvador-Ba; 1997 – Nova exposição no Restaurante Grão de Arroz, Salvador-Ba; 1998 – Exposição do Póstudo Restaurante, Salvador-Ba; 1999 – Exposição no Teatro dos XIII, Salvador-Ba; 2000 -Exposição no All Home Design Decorações – Esculturas Aéreas, Salvador-Ba; Mostra na Galeria Pedro Arcanjo, Série Barcos, Salvador-Ba; 2001 retorna a expor no foyer do Cine-Teatro Casa do Comércio com a mostra Vazados, Esculturas e Objetos em Calcita, Salvador-Ba; 2002 – Exposição Cabeças e Máscaras, na Galeria do SEBRAE, Salvador-Ba; 2003 – Exposição no Ateliê do Atrista – Relevos em Madeira e Pedra, Salvador-Bahia; 2004 – Exposição Esculturas em Mármore, no Museu Geológico da Bahia, Salvador-Ba; Exposição de Esculturas em Madeira e Pedra, na Bahia Home Decorações, Salvador-Ba; 2007 – Exposição Esculturas Aéreas, Salvador-Ba; 2009 – Exposição A Casa, Feira de Santana-Ba; 2014 – Exposição O Tempo é Yang , Esculturas em Relevos e Madeira; Exposição Esculturas na Galeria ACBEU, Salvador-Ba e em 2016 – Exposição O Caracol de Clarysse e a Gangorra Rasteira, Salvador-Ba.

Os entalhes marcaram o início da carreira

COLETIVAS – 1973 – I Feiram, Alagoinhas-Ba; 1976 – Galeria Cañizares, Salvador-Ba ; 1978 – Exposição Confronto de Esculturas da Bahia, Galeria O Cavalete, Salvador-Ba; I Semana de Arte de Alagoinhas-Ba; I Salão da FUMCISA no Museu de Arte da Bahia, Salvador-Ba; III Feira de Arte, Galeria O Cavalete; 1979 – I Festival de Arte de Itapuã, Salvador-Ba; Exposição Cadastro, Museu de Arte Moderna da Bahia; F.E.P.A, Alagoinhas-Ba; Exposição Galeria Orixás Center, Salvador-Ba; 1980 – Exposição Proposta no Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-Ba; III Encontro de Cultura de Alagoinhas-Ba; 1981 – Exposição Projeto II na F.E.P.A, Alagoinhas-Ba; I Encontro de Artistas Plásticos do Nordeste, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-Ba; Exposição no Museu do Recolhimento dos Humildes, Santo Amaro da Purificação-Ba; 1982 – IV Salão de Artes Plásticas de Alagoinhas-Ba; I Festival Interiorano de Arte, Alagoinhas-Ba; 1983 – Participa da Execução do Altar e Púlpito em Pedra, da Catedral de Alagoinhas-Ba; Exposição na SATE Galeria de Arte, Alagoinhas – Ba; 1985 – Exposição Álbum de Gravuras e Poesias, na SATE Galeria de Arte; Exposição de Outono, na SATE Galeria de Arte , Alagoinhas-Ba; 1986 – Exposição Interferências: Fotografias e Esculturas, SATE Galeria de Arte, Alagoinhas-Ba;

Uma bela escultura em mármore onde o artista demonstra sensibilidade e controle do uso do material

IX Salão Nacional de Artes Plásticas, Recife-PE; 1987 – Exposição Escultura na Praça, Alagoinhas-Ba; 1988 – Exposição Projeto Verão, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-Ba ; 1991 – Exposição no Idearium, Barra Grande, Salvador-Ba ; Centro Cultural de Alagoinhas- Ba; 1993 – II Bienal do Recôncavo, São Félix-Ba; FCBA – IV Salão Regional de Artes Plásticas de Alagoinhas, quando recebeu o Primeiro Prêmio de Escultura; 1998 – IV Bienal do Recôncavo, São Félix-Ba; 2006 – Exposição Natureza Reverenciada – Galeria de Arte do EBEC, Salvador-Ba ; 2012 – XI Bienal do Recôncavo, quando ganhou o Prêmio Aquisição, São Félix-Ba; 2014 – Exposição Circuito das Artes, Galeria Aliança Francesa, Salvador-Ba ; Exposição Bahia Contemporânea, Roberto Alban Galeria de Arte; 2015 – Exposição Triangulação – Circuito das Artes, no Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador-Ba ; 2016 – Exposição Acervo da ACBEU em comemoração aos 75 anos, Galeria ACBEU, Salvador-Ba.

Escultura em granito. Veja a forma e as nuances de cores da obra de Josiltom

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